Quinta-feira, 29 de Março de 2012

Exercícios desenquadrados da realidade do jogo

Em Portugal continua, e em divisões importantes, a treinar-se pessimamente.

Há quem na fase principal do treino faça jogos de posse de bola. O objectivo é, segundo quem organiza tais exercícios melhorar a capacidade de preservar a bola, ou ser rápido a pressionar o portador da bola "ganha quem recupera mais vezes a bola".

Teria imenso prazer em que me conseguissem explicar de que forma é que um joguinho de posse só pela posse pode servir um qualquer objectivo, que não técnico ou de puro aquecimento. E fará sentido treinar a técnica pela técnica? Desenquadrada da táctica? Fique a saber que nem com crianças!

A sério. Que transpasse pode ter um jogo de posse de bola que se desenrola num qualquer quadrado ou rectângulo, para um jogo de futebol?

Mas, será que há quem pense mesmo que se os seus jogadores recuperarem muitas vezes a bola de uma forma totalmente desorganizada naquele rectangulo estarão aptos a roubar a bola no jogo? Como é possível organizar-se exercícios na fase de desenvolvimento do treino sem alvos/balizas? Mas não é a baliza que define todo o nosso comportamento? Com e sem bola?

E mais que condicionar as regras do exercício para chegar onde quer, há que condicionar os atletas. Na sua movimentação e na sua tomada de decisão.

Exemplo. Pode um jogo de 4x4 (pontua quem ultrapassa com a bola controlada a linha final adversária) em determinado espaço ter "sumo" e outro jogo exactamente igual de 4x4 no mesmo espaço não servir efeito algum? Pode. Tal depende, da forma como se condiciona a movimentação dos atletas. Peça aos 4 que defendam sempre em 3+1, sendo o (+1) o jogador que sai para a contenção, obrigando a que a cada troca de bola adversária, o jogador mais próximo da bola na linha de cobertura (onde estão 3), saia para a contenção, baixando rapidamente quem estava na contenção (o +1) para a linha de 3 (cobertura), e está a afinar uma possível forma de defender quando tem apenas quatro jogadores atrás da linha da bola. Não condicione a actuação dos seus atletas e terá 4 jogadores a moverem-se de forma quase aleatória, treinando nada.

Mesmo no aquecimento (particularmente em treino) é possível seleccionar exercícios que cumpram objectivos tácticos. Mais não seja para não se considerar o tempo gasto no aquecimento um puro desperdício.



35 comentários:

Constantino disse...

PB,

Nos meus tempos de (quase) atleta federado em iniciados e juvenis, tive um treinador (que mais tarde treinou na 3ª divisão nacional e na 2ªB o Louletano e o Messinense) que fazia epocas inteiras a treinar o seguinte exercicio:

Bola no lateral na linha do meio campo; passe vertical para o ala do mesmo lado e corrida a fazer as costas do mesmo ala; o ala recebia a bola e tabelava imediatamente com o médio centro; o medio centro metia de primeira em direcção à linha de fundo; o lateral aparecia em corrida e cruzava para os 2 pontas de lança finalizarem.

Agora o segredo do lance: tudo isto era feito tendo como unicos adversarios os pinos e o guarda redes. Nem trincos, nem laterais nem centrais. Sei que já foi há muito tempo, mas não me lembro de alguma vez ter visto a minha equipa marcar um golo desta forma (aliás em iniciados e juvenis o numero de golos que se obtêm através de cruzamentos são perfeitamente residuais). Repito... ele treinou na 2ªB...

Abraço

No.Worries disse...

Esse exemplo dos 4X4 é excelente, mas qual a dimensão do espçao onde se desenrolaria um exercicico desses? E também se podia fazer com 5X5, certo?
Concordo que os exercicios de manutenção de posse de bola se deviam limitar ao aquecimento.
O facto de se treinar pessimamemnte em divisões importantes é o resultado de vivermos num "país de cunhas", onde as amizades são mais importantes que a qualidade.

PB disse...

Acredito que 80 por cento dos treinadores de 3as,2as divisões não sejam diferentes...

Mesmo nas ligas profissionais desconfio que sejam demasiados a fazer o mesmo tipo de coisas sem paralelo nenhum com a realidade do jogo...

E depois tb há os q como dizes em vez de explicarem e treinaram o jogo / as varias situações, para que os jogadores estejam aptos a dar as melhores respostas a cada momento, querem determinar jogadas fixas/imutáveis que obviamente no jogo nunca saiem...

PB disse...

No.worries, depende do q pretendes. se o objectivo é melhorar a forma como defendemos c 4 atrás da linha da bola, usaria a largura toda. Mas, terias de pensar se depois n ficaria mt intenso, e poderias usar tb a largura da área se o objectivo foi essencialmente impedir q a bola passe entre os defesas.

E sim 5x5, tb dá. Defender em 4+1, é o q o JJ faz com o Javi. Há quem fique 3+2, dependendo da zona da bola (corredor lateral ou nao)

PB disse...

Bem, no.worries, os exemplos dados e depois a resposta aqui dada tb, foi um bocado à pressa sem pensar mt.

Portanto, deixa-me fazer uma correcção (e isto serve tb p demonstrar q há mt, mas mm mt em q pensar para se poder operacionalizar da forma correcta a obter-se o q se pretende)

Nao usaria a largura toda do campo, apenas a da área. Porque c apenas 4 jogadores atrás da linha da bola, desertinho estou eu para que o adversário encaminhe a bola para a zona entre a grande área e a linha lateral...deserto tou eu q eles coloquem a bola por fora da minha linha defensiva para um corredor lateral, pelo q n faz sentido defender a largura toda, qd eu quero é encaminhá-los para determinada zona.

Enfim, há um sem nº de variaveis em q devemos pensar. E só sentando e pensando em tudo durante mt tempo se consegue produzir algo de interessante.

BC disse...

Concordo plenamente. Os exercícios e o treino têm de ser enquadrados com a realidade do jogo.
Para que serve treinar o passe-desmarca num espaço pequeno e fechado? Só se quiserem que os jogadores joguem em situações de aperto do adversário, mas esquecem-se da largura e comprimento do campo, da orientação para a baliza, da percepção da posição em campo e acabam por não concretizar esse objectivo. Ainda me lembro quando o Domingos disse que existe um jogador do Sporting que treinava preso a uma estaca para não sair da "sua zona". Ainda gostava de saber se é mesmo verdade.

Não sou um especialista do fútebol, sou de outra modalidade e por isso sei que em todas as modalidades colectivas deve existir essa percepção quando realizamos o treino.
As correcções técnicas podem e devem existir em exercícios desse género. Até com as crianças é assim. Um treinador tem de ter olho para conseguir observar uma falha técnica de um jogador e, enquanto o objectivo principal do exercício está a ser concretizado, vai corrigindo esse jogador como objectivo pessoal. Coisas tão simples como "A próxima vez que fizeres isso, dás-me 10 extensões de braço" a outras mais creativas.
Também gostava de saber para que servem os treinadores adjuntos se não para ajudar nesse papel. Bem, em muitos casos serve para "compreender" o que o treinador principal quer, porque é bem verdade o que dizes: muitos treinadores falam o que querem mas não conseguem aplicá-lo no treino. E alguns deles até são "bons treinadores" (só porque sabem a teoria toda).

Anónimo disse...

http://www.uefa.com/trainingground/training/drills/index.html

Ver o video onde aparece o Robben.... ;)

No.Worries disse...

Bem me parecia que usar a largura toda do campo seria um bocado "violento" do ponto de vista físico... mas é como dizes: existem inumeras variantes.
Obrigado pela (dupla) resposta.

PB disse...

O exercicio que ai está é um optimo exemplo de desperdicio de tempo. Mas onde é q vai alguma vez num jogo haver situação semelhante? é treinar para encher...

BC disse...

PB, referes-te à forma que eu disse de corrigir uma técnica durante outro exercício ou ao exercício do anónimo?

PB disse...

Ao exercicio no site da Uefa, claro!

Anónimo disse...

O exercicio que eu nomiei é um dos muito possiveis...mas tem a vantagem de ter balizas....ou seja...são exercicios que contemplam a posse de bola e o bom entrusamento entre os centrais por ex....ou um dos centris e o trinco...e poder tb combinar com os alas...terminado a jogada com concretização se o "exercicio" for bem sucedido pois os alas têm tb a pressão de jogadores "adversários".

Anónimo disse...

Sem balizas mas mais parecido com o q foi colocado aqui inicialmente por PB:
http://www.uefa.com/trainingground/training/drills/video/videoid=1731831.html?autoplay=true

Anónimo disse...

ou:

http://www.uefa.com/trainingground/training/drills/video/videoid=1731837.html?autoplay=true

BC disse...

Ah, pronto! Já agora, podes explicar o porquê e como mudavas?
Eu não sou específico de futebol e portanto estou interessado em saber o que TU vês. Cada pessoa vê coisas diferentes.
Os pontos fortes que eu vejo é fugir à marcação HxH, aumentar a eficácia de acções quando pressionado e procurar linhas de passe com largura e comprimento do campo. As fraquezas que vejo é que está a desencorajar acções dos laterais para o meio do campo e a forçar o jogador a fazer apenas uma acção (procurar a linha de fundo e centrar) em vez de encorajar o jogador a procurar uma situação mais perigosa para o adversário e deixá-lo tomar decisões entre várias acções possíveis.

PB disse...

anónimo , onde estou de momento, n consigo abrir os links. qd puder espreito.

BC, n vejo absolutamente nada de positivo ou produtivo no tal exercicio. N tem qq objectivo táctico, está completamente desenquadrado de qq situação de jogo. É pura perda de tempo.

PB disse...

aliás, é pior que perda de tempo, pq o exercicio ainda tem condicionantes q leva os jogadores a tomarem más decisões.

PB disse...

Já vi os outros exercicios. é precisamente este tipo de coisas inuteis que mts treinadores passam os treinos a fazerem. Isto n seria um bom treino nem p miudos de 4 anos. Sem exagero.

Estes 2 então, sem oposição, sem objectivo táctico, sem trespasse para o jogo. Para tar a fazer isto mais vale andar a correr no mato, ai sp se melhora a condição física..

Nuno L disse...

Viva PB,

aproveitava o contexto do post para conhecer a tua opinião sobre os exercícios s/ oposição na fase principal do treino. Sei que é complicado falar sobre esse tipo de exercícios em abstracto, mas era uma questão sobre a qual eu tinha uma visão muito fundamentalista quando passei do treino de miúdos para treino de futebol de 11 (jovem e sénior) e com a experiência comecei a olhar doutra forma e a integrarem determinados dias do ciclo de treino. Não só como recuperação mas também para melhoria de rendimento (tecnico/tactico/físico/psicológico).

Obrigado

PB disse...

Viva Nuno, sem oposição na fase principal do treino não concordo absolutamente nada. Abraço.

Nuno L disse...

Ok.
Como disse, já partilhei dessa opinião. Aquilo que me fez incluir exercícios s/ oposição em fases principais teve que ver com o aparecimento de um desgaste mental das formas jogáveis (sobretudo em U15, não tanto em seniores). Com uma utilização absoluta de exercícios c/ oposição e objectivos de concretização, notava uma queda de intensidade e concentração. Havia uma banalização da competitividade. Em adultos é diferente, porque a rivalidade por lugares e o próprio orgulho obriga a querer sempre ganhar os exercícios todos.
E por isso, passei também a utilizar exercícios s/ oposição (só contra GR) com outro tipo de condicionantes e informações para decisão (por exemplo movimento do colega ou direcção do passe) de forma ocasional (normalmente 6ª feira após aquecimento) mas ainda assim relevante no ciclo de treino.

Parabéns pelo blog, e post sobre treino são sempre bem-vindos por este leitor.

Bernardo disse...

pb, em relação ao que respondeste lá atrás ao no.worries. parece-me acertado o princípio que defendes para utilizar apenas a largura da grande área. por outro lado, utilizar a largura toda, ou seja, dar o espaço que não queremos para se jogar não será uma forma também de aprender errando, ou tendo o espaço disponível obrigar os jogadores que atacam e defendem a tomar as melhores decisões com relação à circulação da bola e ao posicionamento defensivo? é apenas uma questão para trocar pontos de vista.

outra questão: que tipo de parâmetros tens em conta quando estás a pensar/criar um exercício? p ex: importância de cada vertente do jogo no exercício; intensidade; oposição (ou que tipo de oposição); condicionantes; espaço...etc.

abraço,

PB disse...

parâmetros q penso para criar o exercicio p a fase principal do treino.

Momento do jogo (organização/transição)
objectivo (táctico, sempre), critério de êxito (forma de medir se o exercicio foi de encontro aos objectivos)
Oposição (sempre e activa. Se quiser mt sucesso no ataque para reproduzir mtas x o q pretendo dou superioridade numérica, mas oposição sp activa)
Espaço em função do que acontece no jogo.
A ideia é recriar ao máximo o jogo, mas com condicionantes que permitam repetir muitas x o comportamento que pretendo q tenham qd em jogo.

abraço

Pedro disse...

PB, fará sentido se este exercicio for numa fase inicial da aprendizagem para depois sim, ser aplicado a situações mais reais?

Peter disse...

Que sentido tem uma crianca faze determinados exercicios tacticos, com oposição se a maioria nem sabe o que é uma bola?!!!

Essas teorias só mesmo quem nunca treinou jovens com 4/5/6/7/8 anos e outros mais velhos....

Estes estudantes hoje, pensam que só determinados aspectos se treinam em integração, quando em jovem é necessário treinar em primeiro a coordenacao e tecnica...

Mas é sempre bom trocar ideias, mesmo que algumas sejam irreais!

PB disse...

Boas, Peter, talvez as crianças com que tu trabalhes sejam paraliticas. Ou então, talvez devas considerar pq é que as q trabalham ctg não saibam sequer o que é uma bola... Vais ver que se calhar és mt responsável por isso...

Mas, posso dizer-te que na metodologia dos dois grandes de Lisboa, os aspectos tácticos são os mais determinantes e começam logo nos pré-minis (miudos de 3 e 4 anos)

Talvez não saibas é bem o que é táctica. Mas, qq jogo de 2x2 envolve uma componente táctica.

E como é obvio mesmo em miudos de 3 anos é pelas formas jogadas que evoluem, e não por ficarem parados um a frente do outro a passarem a bola um ao outro. Mas, talvez devas visitar os treinos das melhores equipas portuguesas. Quem sabe não ficas surpreendido, quer com a forma como os treinos sao organizados quer com o que as crianças de 3 e 4 anos são capazes de fazer uns meses depois de iniciarem os treinos...

montoya disse...

PB,
repara neste vídeo: http://www.planetadofutebol.com/media/bilbao-2 (3:13m - 3:50m)
Parece que podes acrescentar treinadores da liga espanhola ao conteúdo do teu post.

PB disse...

Montoya onde estou n consigo ver videos...

Mas, bilbao... isso é de qd? q exercício é?

PB disse...

de qq das maneiras, duvido que algum grande treinador deixe filmar a parte principal do seu treino... a menos q tenha preparado um dia diferente para descontrair...

montoya disse...

É uma reportagem, quando o Caparrós,ainda, era o treinador.
É um "exercício técnico" em que o Javi Martínez está a passar a bola a uma parede chamada Iraola! Vale a pena ver.
Embora também me pareça que foi uma coisa só par aparecer na reportagem, não deixa de ser caricato.

PB disse...

ufff tiraste-me um peso de cima! Tava a ver q o Bielsa metia os jogadores dois a dois a passarem um para o outro LOL

Mais à tarde já espreito.
obrigado.

montoya disse...

:)
Chega a ser cómico o feedback que ele dá,tendo em conta o exercício.

PB disse...

ahahah

ya

"isso n é real"

LOL é normal q n seja, jogar com paredes lol

TA disse...

PB,

Só mais uma achega.

Por certo já viste um vídeo viral, creio que da LC, em que se vê a equipa do Barça, dividida em 2 grupos, a fazerem "meinhos", com dois círculos, com jogadas a 1 toque e 2 jogadores a tentarem ganhá-la...

Bem sei que era apenas para o aquecimento, acha até que pura recreação dos jogadors, e, principalmente, para os 15 minutos dos media... mas gostava de saber a tua opinião, uma vez que era um exercício fora do contexto de jogo e de táctica.

Obrigado,

PB disse...

Viva Ta, vi o video sim.

Acho que é uma excelente forma de fazer a activação inicial do aquecimento. É óbvio que aquilo n será a parte fundamental dos treinos do Barcelona...